quarta-feira, 31 de maio de 2017

ENTREVISTA COM O DESENHISTA LAERTE


Foto: Miguel Manso.
Um diálogo por computador entre a cartunista Laerte Coutinho e a jornalista Eliane Brum dá início ao documentário “Laerte-se”, disponível a partir deste mês na Netflix. Eliane faz parte da equipe de roteiristas e diretores do filme. Sofrendo de ansiedade, Laerte pede para adiar o primeiro encontro, que marcaria o início das gravações. Eliane a convence.
Assisti ao documentário sempre lembrando deste diálogo, da dificuldade e ansiedade de Laerte explicitadas logo no início. Várias passagens de “Laerte-se” soam assim: como processos difíceis de realizar, de sair, de serem ditos ou explicados. Mas não se iluda: nem a cartunista ou o filme têm pressa de explicar nada. O documentário levou três anos para ser gravado.
Fiz algo que demorei sessenta anos para fazer” (sobre tornar-se mulher)
Por outro lado, o desconforto de Laerte não pesa o filme. Há outras passagens em que a vemos à vontade, como se a câmera tivesse finalmente se integrado ao seu dia a dia. Ou Laerte se integrado a ela. Parece que, no longo período de gravações, a cartunista aprendeu a lidar com essa interferência e essa exposição – outro processo!
As gravações do filme, a transgeneridade, a aceitação da família, a auto aceitação, a reforma da casa, decidir em colocar ou não colocar peitos: “Laerte-se” é sobre processos, longos, marcantes, às vezes dolorosos, mas que podem resultar em momentos leves e delicados.
Ou não: “Como foi a primeira vez que teu pai te viu vestida de mulher?” – “Ah, ficou puto!
Com Eliane Brum (Foto: divulgação/Tru3Lab)
A única maquiagem do filme é a que Laerte usa. Sem o menor glamour ou cinismo, a cartunista se desnuda – também literalmente – ao falar da família, infância, trabalho, carreira, política, militância e amor. Anda pelas ruas, prova vestidos, desenha, conversa com vizinhos, vai a manifestações populares e encontros familiares. Mas não se trata de um exibicionismo vaidoso.
A ideia de que a minha opinião vai orientar as pessoas é aterrorizante!
A ótima edição faz o documentário parecer sem roteiro, natural, e acompanha a vida simples da cartunista em sua casa, no bairro do Butantã, em São Paulo. Animações que reproduzem suas charges dão um tom lúdico. O grande painel que Laerte pinta na abertura do filme, ao final, sintetizará quem ela é. Um grand finale, por sinal.
A bagunça da casa em reforma contrasta com sua indecisão em colocar ou não peitos. Laerte demonstra uma constante e incômoda inadequação e um anseio por mudanças ou por respostas. Uma de suas frases mais notáveis deixa claro:
Eu sou inadequada. E minha casa, por extensão, também é”.
A moradia como edificação para o corpo. E o corpo como edificação para a alma.
Foto: divulgação/Tru3Lab.
Laerte-se”, primeiro documentário brasileiro original da Netflix, produção da Tru3Lab, direção de Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum e roteiro delas e de Raphael Scire. Acesse a página do documentário na internet.

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