quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

QUADRINISTAS PERNAMBUCANOS NOS USTAS UNIDOS



Desenhos levam o leitor a tempos e lugares diversos - na Terra, em outros planetas ou mesmo em realidades paralelas. Ler quadrinhos está em algum lugar entre folhear um livro e assistir a um filme. Para muitos, pode ser até melhor do que essas opções. A cultura dos quadrinhos vem sofrendo por conta das alternativas - como filmes e video games -, mas, no Recife, há uma resistência que se empenha em manter a tradição viva. Parte dela vem de desenhistas que produzem para marcas internacionais.
Folha de Pernambuco conversou com três artistas locais que têm trabalhos internacionais. Thony Silas, Milton Estevam e Marília Feldhues. Cada um a sua maneira leva a arte do desenho a diversos países pelas páginas que produzem. Suas histórias com os traços, em geral, vêm desde criança - desejo de muitos que, para eles, virou profissão.
Quer concorrer a três desenhos feitos pelos artistas entrevistados? Clique aqui para saber como! 
Trabalhando atualmente para a Marvel Comics, Thony Silas conta que o desenho é um momento de meditação. “Depois que você alcança uma facilidade de produção, o desenho sai automaticamente. Então, enquanto estou produzindo ‘no automático’, mergulho em meditação”, diz.
Para Silas, o quadrinho é, além de entretenimento, ferramenta de comunicação. “A gente transmite ideias com os quadrinhos que, se fosse falar pessoalmente, levaria a uma discussão mais difícil. Os quadrinhos suavizam esse debate”, opina. Ele também cita a importância do estudo, que não se resume ao desenho. “Você não estuda desenho de forma isolada. Tem que estudar filosofia, história, coisas que enriquecem você como pessoa”, aponta.
No Brasil, apesar de o mercado local não chegar nem perto do norte-americano, por exemplo, nota-se o crescimento, principalmente, de produções independentes. “Estão surgindo quadrinhos autorais, principalmente pela possibilidade do financiamento coletivo. Produtores brasileiros passaram a fazer revista para o público brasileiro, em vez de exportar. Percebi na Comic Con Experience, em São Paulo, que o leitor brasileiro estava procurando o quadrinho autoral. É algo que está criando um novo mercado”, opina Milton Estevam.
Nesse meio, antes dominado pelos homens, a presença feminina cresce. Até heróis ganham suas versões femininas. Milton, por exemplo, já desenhou a história de uma Robin Hood mulher.
Para Marília Feldhues, com o crescimento dos quadrinhos independentes, aumenta também o número de autoras. “O mercado independente abarca histórias diversas e, consequentemente, leitores diferentes. Temos mulheres com destaque na produção de quadrinhos nacional. A tendência é aumentar”, analisa. Ela vê, no mercado autoral, maior liberdade de criação. “Na grande indústria, você normalmente trabalha com personagens que já existem, precisa seguir uma linha determinada”, aponta. Quanto ao retorno financeiro, ela pondera que o mercado mainstream dá a garantia de uma empresa que paga pelos desenhos, enquanto uma produção independente requer financiamento coletivo ou aceitação de uma produtora.
Os três desenhistas desta matéria estarão na Comic Con Experience Tour Nordeste, que ocorre de 13 a 16 de abril no Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda. Ficarão no Artists Alley, área dedicada aos quadrinistas, que poderão expor, fazer desenhos na hora e vender produções.
Ícone dos Quadrinhos
Thony Silas é um desses representantes da nona arte. Atuando no mercado americano há cinco anos, o recifense do bairro do Ibura descobriu na arte de produzir quadrinhos uma forma de escapar de boa parte dos problemas que o cercavam em seu dia a dia. Pois, a falta da arte, na sua opinião, abre o espaço para os males sociais. “Muitos jovens saem de casa e veem outra realidade ao seu lado e se perguntam sobre o que não têm. Por quê? Porque não têm arte. Quando há arte, nada lhe falta”, acredita.
Por isso, o quadrinista está desenvolvendo alguns projetos sociais, ainda em fase inicial, a fim de ajudar crianças e adolescentes.

Thony começou a sua carreira como assistente de um outro desenhista, o Vamberto Nicomedes; e logo em seguida fez o seu primeiro trabalho como artista principal. Anos depois, o artista iniciou sua carreira desenhando para a Marvel.
Workaholic declarado, Thony Silas não consegue passar muito tempo distante do papel, das tintas e de sua mesa de desenho. E essa dedicação só tem lhe rendido bons frutos. Afinal, disciplina e responsabilidade com os prazos, segundo ele, são os fatores mais importantes para quem quer trabalhar com títulos em grandes editoras, como Marvel ou DC Comics. “Sem esse compromisso, as portas do mercado nem são abertas; e, se por acaso se abrirem, rapidamente se fecham”, declara.
Outra consideração feita por ele é em relação ao estilo do desenho. “Ainda que o traço próprio esteja bastante diluído - isso desde a década de 1990. Mas, sem dúvida, ainda é relevante”, acredita o artista.
Para Thony Silas, um estilo próprio é essencial para alcançar destaque no mercado, conseguir desenhar títulos de ponta das editoras e ser o artista principal de cada um desses títulos, e não o que irá completar a edição (prática muito comum ao mercado americano de quadrinhos).
Tendo desenhado ícones da cultura pop e dos quadrinhos, como Batman, Homem Aranha, Superman, Demolidor, Silas diz que não para de sonhar, e que, a cada meta alcançada, surge uma outra a se buscar.
Empreendedorismo
Milton Estevam também hoje é figura carimbada nas páginas das comics. Ele teve seu primeiro contato com os quadrinhos na infância, ao criar suas próprias histórias a partir dos desenhos animados da televisão. Um dia, na feira de Casa Amarela, encontrou um sebo onde teve seu primeiro contato com os quadrinhos. Paixão à primeira vista. As edições dos X-Men, as páginas do Superman desenhadas pelo José Luis Garcia López, tudo reluzia diante dos seus olhos.
Alguns anos mais tarde, Milton conheceu mais alguns apaixonados pela nona arte, como o Romo Oliveira e o Bruno Alves. Com eles, criou a Grafite, um dos principais fanzines de quadrinhos nas décadas de 1980 e 1990. Como o projeto não supria seu sustento, o artista precisou se afastar da produção por dez anos, e seguiu para outras áreas. Decidiu, posteriormente, abrir Elemental Comic Shop, que marcou a primeira década dos anos 2000, por trazer para a Cidade o conceito de um local destinado apenas ao comércio de HQs e produtos sobre o universo.

Em 2009, o ilustrador decidiu voltar a produzir e procurou o estúdio do Ed Benes, um dos grandes quadrinistas brasileiros no mercado americano, para ser agenciado. Em menos de dois meses, teve a oportunidade de desenhar para a Dinamite Comics, uma grande editora americana, com uma personagem bastante conhecida nos Estados Unidos, a Red Sonja, ficando à frente do título por 10 edições, finalizando a série. Outro destaque de seu trabalho foi para a Zenescope, com a personagem Robyn Hood. Isso mesmo “a” personagem! A Zenescope é uma editora que trabalha com versões femininas de personagens do gênero masculino.
O artista também desenhou para editoras independentes de outros países, como por exemplo da África do Sul, sua atual ocupação.
Para Milton, trabalhar nesse nicho não representa risco, já que o pagamento é satisfatório e no prazo, como as editoras do mainstream. “Por página, o valor praticado varia entre 70 e 100 dólares. Nas empresas de grande porte - como Marvel, DC, Image, Darkhorse - se paga muito acima disso, nos casos de artistas com contrato de exclusividade”, diz.
Atualmente, Milton Estevam é sócio fundador do InkStand Studios, junto com os também desenhistas Hique Pereira, Romo Oliveira, Cidclay Laurentino e Edmar Junior. É de lá que ele produz suas páginas e envia mundo afora.
Mercado independente
Recifense, do bairro do Cordeiro, Marília Feldhues teve o seu primeiro contato com os quadrinhos por meio da Turma da Mônica, passando em seguida pelos mangás, para então migrar para a leitura dos independentes brasileiros, sua paixão.
Profissionalmente, a artista começou a fazer parte de algumas HQs coletivas, e, depois, passou a realizar a organização desses impressos. Seu trabalho mais recente é “Cemitério dos sonhos”, uma parceira com o roteirista português Miguel Peres e mais quatro brasileiros, lançado pelo selo Quanta, da Editora Sesi-SP. A publicação foi lançada também em Portugal pela editora Bicho Carpinteiro.

O convite para ingressar no mercado europeu veio pelo próprio Miguel Peres, ao conhecer o portfólio de Marília na internet.
“O mercado europeu apresenta uma semelhança com o que eu já acompanhava no nosso mercado interno de quadrinhos, histórias mais autorais, produção menos industrial e estrutura de independência para a publicação editorial”, afirma a quadrinista. E é justamente nessa pegada independente que ela pretende investir para a sua próxima obra, em fase de produção.
Para Marília, a participação das mulheres no cenário independente está ligada ao fato de haver mais liberdade na criação das histórias. Segundo ela, o mercado americano - em grande maioria de histórias de heróis - atende ao universo masculino. “Você vai ter homens produzindo histórias para leitores homens e se cria um círculo vicioso. Mas, em algum momento, é necessário outros caminhos, com outros tipos de leitores, com outras demandas , com outras histórias e, logo, com outros autores”.
Desenhistas pernambucanos produzem quadrinhos de diversos estilos

Nenhum comentário:

Postar um comentário