domingo, 19 de fevereiro de 2017

DOSSÊ REGINA DUARTE

Regina Duarte, uma das atrizes mais famosas e respeitadas do Brasil, comemora 70 anos neste domingo (5). Com mais de 40 trabalhos na TV em 52 anos de carreira, a atriz nascida em Franca (interior de São Paulo) é chamada até hoje de "namoradinha do Brasil" por interpretar personagens comportadas, mas o apelido é mal visto por ela.
Ela deixou de ser "bela, recatada e do lar" na TV em papéis como o da professora Nina, que chocou a sociedade com ideias avançadas para a época, na novela homônima de 1977. Dois anos depois, retratou a condição feminina no fim da década de 70 vivendo a socióloga divorciada Malu, da série "Malu Mulher".
Entre seus trabalhos mais marcantes, estão Simone Marques, que foi dada como morta e retornou como Rosana Reis em "Selva de Pedra" (1972), a excêntrica Viúva Porcina, de "Roque Santeiro" (1985), e a "nova rica" Maria do Carmo, de "Rainha da Sucata" (1990). Também são lembradas até hoje as Helenas de "História de Amor" (1995), "Por Amor" (1997) e Páginas da Vida" (2006), novelas de Manoel Carlos.
Atriz com mais indicações no Troféu Imprensa (14 no total), Regina recebeu cinco estatuetas, empatando com Fernanda Montenegro como a maior vencedora da premiação apresentada por Silvio Santos. Da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), levou dois prêmios.
A carreira de Regina também é marcada por polêmicas, principalmente quando a artista se envolve com política. Ela já apoiou publicamente Fernando Henrique Cardoso à Prefeitura de São Paulo, em 1985, e José Serra à Presidência, em 2002 (em que disse a famosa frase "Estou com medo"). Além da TV, a atriz é ativa nas redes sociais e frequentemente vira meme na internet.

Sete momentos dos 70 anos de Regina Duarte

  • Montagem/UOL

    Troféu Imprensa rejeitado

    Regina Duarte e Eva Wilma eram as atrizes mais elogiadas da TV em 1973 e no ano seguinte competiram ao Troféu Imprensa. Regina recebeu o prêmio das mãos de Silvio Santos pelo papel de Cecília na novela "Carinhoso", da Globo, mas ofereceu à concorrente, que viveu as gêmeas Ruth e Raquel em "Mulheres de Areia", da Tupi. "Esse prêmio não é meu, quem merece é Eva Wilma", disse ao vivo
  • Reprodução

    De prostituta a "namoradinha"

    Ser "namoradinha do Brasil" por interpretar personagens comportadas já incomodou Regina: "Este rótulo me aprisionava a papéis sempre iguais: moça, meiga, dependente. Virei escrava". O apelido se refere à novela "Minha Doce Namorada", estrelada por ela em 1971, porém surgiu quatro anos depois, quando viveu uma prostituta no teatro e foi chamada pela revista Veja de "ex-namoradinha do Brasil"
  • Divulgação

    Ela tem uma versão mais jovem

    Semelhança entre pais e filhos não deveriam impressionar tanto (afinal, são pais e filhos, né?), mas Regina se parece com Gabriela a ponto de dividir a mesma personagem com ela. Foi assim na minissérie "Chiquinha Gonzaga" (1999) e na novela "A Lei do Amor", em que repetiram o papel em épocas diferentes. Elas também foram mãe e filha em "Por Amor" (1997) e contracenaram juntas na peça "Honra" (2000)
  • Reprodução

    "Estou com medo"

    Durante a eleição para presidente da República, em 2002, Regina Duarte virou cabo eleitoral do PSDB e disse esta frase, lembrada até hoje: "Estou com medo". A atriz participou do programa de José Serra tentando convencer os eleitores de que Lula traria instabilidade econômica ao Brasil. Ela não convenceu e o petista foi eleito, porém o "medo" de Regina foi "ressuscitado" na campanha eleitoral de 2014 e no impeachment de Dilma Rousseff, em 2016
  • Danilo Verpa/Folhapress

    Contra Dilma, Ministério da Cultura e terras indígenas

    O posicionamento político de Regina também causou polêmica fora da corrida eleitoral. Ela já disse que, se fosse escalada, recusaria interpretar Dilma Rousseff. Quando Michel Temer assumiu a Presidência, a atriz defendeu a extinção do Ministério da Cultura. Casada desde 2000 com o pecuarista Eduardo Lippincott, Regina repudiou a demarcação de terras indígenas e foi criticada por apoiar ruralistas. Recentemente, ela apareceu com prefeito de São Paulo, João Doria, fantasiado de gari
  • Montagem/AgNews/Reprodução

    "Ozzy" e dançarina: os memes de Regina

    Além de grandes papéis, Regina Duarte coleciona memes na internet. Em 2012, ela dançou bossa nova no castelo de Caras e a performance exótica viralizou nas redes sociais. Dois anos depois, a atriz foi flagrada em um aeroporto vestindo um look hippie inusitado e foi comparada a Ozzy Osbourne. Regina mostrou que sabe rir de si própria e afirmou ter achado engraçada a montagem com o roqueiro
  • Reprodução/Instagram/reginaduarte

    Gente como a gente no Instagram

    Sabe aquele parente que coloca fotos no Instagram sem parar? Regina Duarte é assim. Em seu perfil com mais de 5 mil postagens, a atriz não tem muito critério: pode ser aquela selfie tremida, reprodução da tela do próprio celular ou vídeo gravado toscamente. Muitas vezes ela publica a mesma imagem duas vezes seguidas! Em 2015, a atriz usou a foto de um espetáculo para apoiar protestos políticos e incomodou o grupo teatral responsável pela peça
Regina Duarte como Clô Hayalla em "O Astro"
Regina Duarte como Clô Hayalla em “O Astro”
A Namoradinha do Brasil completa 70 anos neste dia 5 de fevereiro – 55 dos quais de carreira, nos palcos, no cinema e, principalmente, na televisão. Carismática, através de suas personagens e popularidade, Regina tornou-se uma figura icônica para as Artes do país. Abaixo, listo 10 fatos de sua carreira televisiva que talvez você desconheça.
1. Descoberta num comercial de geladeira
Com 16 anos, Regina Duarte já fazia publicidade. Também teatro amador, mas nunca havia atuado profissionalmente. Em 1965, Walter Avancini, então diretor da TV Excelsior, viu a garota num comercial do refrigerador Frigidaire – “não era nem a minha voz, eu era dublada”. O diretor estava escalando para uma novela e fez uma entrevista rápida. Regina contou para o livro “Walter Avancini, o último artesão” (de Ângela Britto):
“- Eu queria que você lesse um texto – pediu.
Li apenas quatro ou cinco linhas e ele interrompeu.
– Pode parar. Tem um timbre de voz bonito. Um bom timbre e boa dicção. Faz teatro?
– Faço – respondi. (…)
Conversamos um pouco e ele disse:
– Pode passar na produção, eles vão dar um dia que você terá que vir aqui provar a roupa. Estamos em cima da hora e quero que você faça o papel. (…)
A partir daí, foi um tumulto em minha vida.”
A novela era “A Deusa Vencida”, de Ivani Ribeiro, o papel era Malu, uma moça sonsa que se fazia de doente e escrevia cartas anônimas ameaçando os demais personagens. Foi sua estreia na televisão e seu primeiro sucesso.
2. Traumatizada pelo diretor
Semanas antes do término das gravações de “A Deusa Vencida”, Walter Avanicni avisou Regina que ela teria uma grande cena no último capítulo. Avancini era um profissional exigente, enérgico e temido por todos. Regina contou ao livro “Walter Avancini, o último artesão”:
Passei por uma experiência traumática, terrível, com ele (…) Era um grande monólogo, de vinte e tantas páginas (…) Até então, nunca tinha tido mais do que oito, dez falinhas de uma linha (…) Recebi o texto numa quarta para gravar na segunda. Entrei em pânico, não conseguia decorar, me deu um bloqueio (…) Ele começou a gravar a minha cena às 18h e às 22h eu ainda não tinha conseguido. Avancini não queria parar, queria que eu dissesse as vinte e tantas páginas direto (…) Tive um surto, uma coisa terrível, um elenco inteiro me olhando…”.
Diante da incapacidade da atriz, Avancini tentou gravar a cena por partes, mas nem assim Regina conseguiu. No momento em que sua personagem tinha que chorar, o diretor exigiu mais e mais emoção, até que ela, estafada, perdeu o controle e caiu num choro compulsivo. O diretor finalmente mandou parar a gravação para continuar no dia seguinte. Regina conta que chorou sem parar duas horas seguidas.
Com Tarcísio Meira, em "A Deusa Vencida"
Com Tarcísio Meira, em “A Deusa Vencida” – a primeira novela
3. Papel de ET
Em 1969, ano em que o homem pisou na Lua pela primeira vez, Ivani Ribeiro apresentou na TV Excelsior a novela “Os Estranhos”, sobre seres extraterrestres que vinham à Terra para ajudar os homens a resolver seus problemas. Regina era a ET Melissa, com direito a figurino especialmente confeccionado e condizente com sua condição de ser de outro planeta. Rosamaria Murtinho, Cláudio Corrêa e Castro, e outros, também eram ETs. Uma curiosidade: o rei Pelé atuou nessa novela, no papel de um escritor, sem se comprometer muito, já que seu personagem tinha poucas falas.
Com Stênio Garcia e Pelé, em "Os Estranhos"
Regina como uma ET, com Stênio Garcia e Pelé, em “Os Estranhos”
4. Abandonou a novela pela metade para ir para a Globo
Foi em 1969, durante a novela “Dez Vidas”, de Ivani Ribeiro, na TV Excelsior. A emissora paulista passava por sua derradeira crise. Diante de pagamentos atrasados, Regina não teve dúvida: aceitou o convite de Boni para mudar-se para a Globo e abandonou as gravações de “Dez Vidas”, em que interpretava a personagem Pompom. Foi substituída na novela por Leila Diniz. Eram tempos em que os contratos dos atores eram menos rígidos que hoje. Na Globo, Regina foi recebida com status de estrela: foi protagonizar a novela “Véu de Noiva”, de Janete Clair, no papel de Andreia, com direito a menção nas chamadas: “Só mesmo Andreia traria Regina Duarte para a Globo!
Em "Véu de Noiva"
Em “Véu de Noiva”, estreia na Globo
5. O título “Namoradinha do Brasil” veio depois
Atribui-se o apelido às personagens cândidas e românticas que Regina interpretou entre os anos de 1960 e início dos 70, sendo o auge a sua atuação na novela “Minha Doce Namorada”, em 1971. Mas o título não surgiu nessa época. Em depoimento ao Memória Globo, Regina afirmou que só depois passou a ser chamada de “Namoradinha do Brasil”, quando já havia decidido dar um rumo diferente à sua carreira, de forma a se afastar da imagem de mocinha romântica e sofredora. Foi em 1975, em uma entrevista às “páginas amarelas” da Veja, por ocasião da peça “Réveillon”, em que viveu uma prostituta. O título da reportagem era “A EX-NAMORADINHA DO BRASIL”. “O título da novela [‘Minha Doce Namorada’] veio a inspirar a imprensa, anos depois, a me chamar de ‘Namoradinha do Brasil’ (…) Mas já como ‘ex’ porque eu já estava rompendo com essa imagem…”.
Com Cláudio Marzo, em "Minha Doce Namorada"
Com Cláudio Marzo, em “Minha Doce Namorada”
6. As gravidezes que atrapalharam as novelas
Regina tem três filhos: André, Gabriela e João Ricardo. As gravidezes dos dois primeiros aconteceram enquanto atuava na televisão. Regina ficou grávida de André quando vivia a personagem Ritinha de “Irmãos Coragem” (1970-1971). Como saída, a autora, Janete Clair, fez com que a personagem ficasse também grávida. Na novela, Ritinha dá a luz a uma menina e a batiza de Gabriela. Na vida real, nasceu André. Em 1973, Regina estava na novela “Carinhoso”, de Lauro César Muniz, quando ficou grávida pela segunda vez. Neste caso, a gravidez da atriz interrompeu a produção, pois se sua personagem (Cecília) engravidasse, acabaria a história dela. Assim, “Carinhoso” teve que ser encurtada. Nos últimos capítulos, a câmera tentava esconder ou disfarçar o barrigão da atriz. Regina deu a luz a uma menina e usou o nome da filha de Ritinha de “Irmãos Coragem”: Gabriela. João Ricardo nasceu em 1981, ano em que a atriz estava fora da televisão.
Com Cláudio Marzo, em "Carinhoso"
Com Cláudio Marzo, em “Carinhoso” – barriga de grávida escondida
7. Prêmio recusado
Até 1975, Silvio Santos exibia seu programa dominical na Globo e todo ano promovia o Troféu Imprensa, com a presença do elenco da emissora (como Faustão faz hoje com o Melhores do Ano). Regina Duarte foi eleita a Melhor Atriz de 1973 por sua atuação em “Carinhoso”. Mas na hora de receber o prêmio, num gesto de generosidade, a atriz fez um discurso em que repassava a estatueta à sua colega Eva Wilma, em reconhecimento pelo trabalho dela na novela “Mulheres de Areia”, da concorrente TV Tupi.
revistaamiga
8. Fora da Globo
joanaAconteceu em 1984. A atriz deixou a Vênus Platinada para protagonizar uma produção independente do diretor Guga de Oliveira (irmão do Boni): o seriado “Joana”, que foi exibido na TV Manchete e, no ano seguinte, no SBT. Essa foi a única vez em que Regina, depois de ter sido contratada pela Globo (em 1969), foi vista em outro canal. A proposta do seriado era muito parecida com a de “Malu Mulher”: as protagonistas eram mulheres “empoderadas”, em conflitos com os seus respectivos filhos e ex-maridos.
9. Regina custou para encontrar o tom da Viúva Porcina
Com a recusa de Betty Faria para interpretar a Viúva Porcina (ela foi a Porcina original, da versão censurada de “Roque Santeiro”, em 1975), algumas atrizes foram cogitadas para a nova versão, de 1985: Marília Pêra, Vera Fischer, Sônia Braga e Natália do Valle. Só depois veio o nome de Regina Duarte. Em princípio, os diretores Daniel Filho e Paulo Ubiratan ficaram apreensivos: como fazer a ex-namoradinha do Brasil se transformar na caricata amante nacional? Mas Ubiratan apostou nela. Ao dirigir as primeiras cenas, o diretor não ficou satisfeito com o tom de voz da atriz e trancou-se com ela no estúdio por uma hora, mais ou menos. Quando retornaram, Regina havia incorporado a Viúva Porcina que ficamos conhecendo – vários tons acima – e que se tornou uma das personagens mais emblemáticas da televisão.
Com Lima Duarte, em "Roque Santeiro"
Com Lima Duarte, em “Roque Santeiro”, de namoradinha do Brasil a amante nacional
10. Não queria que a novela acabasse
“’História de Amor’ eu não queria que acabasse nunca! Cheguei a dizer para o Boni: ‘Não dá para ficar como aqueles seriados de antigamente, que duravam cinco, dez, quinze anos?’ Eu queria ficar fazendo ‘História de Amor’ para sempre! Ele ria e dizia: ‘Não. Tem que acabar. Mas a gente faz outra depois’. E, realmente, um ano depois, ele me chamou para fazer o que, para mim, era ‘História de Amor 2’, mas que teve o nome de ‘Por Amor’. E ainda chamou a Gabriela para fazer a minha filha. Foi o máximo!”, declarou Regina para o Memória Globo.
A Helena de “História de Amor” (1995-1996) é a minha preferida das Helenas do novelista Manoel Carlos. Além desta e a de “Por Amor” (1997-1998), Regina viveu ainda a Helena de “Páginas da Vida” (2006).
Com José Mayer, em "História de Amor"
Com José Mayer, em “História de Amor”, a melhor Helena

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