Era para ser simplesmente mais um filme fofo da Disney. “Procurando Dory”, principal estreia dessa quinta-feira nos cinemas, seguiria, certamente, as fortes correntezas que levaram ao sucesso da animação original, “Procurando Nemo”, lançada há 13 anos. Mas uma onda conservadora acertou o longa em cheio, antes mesmo de ganhar as telas.
No lugar de servir como isca para atrair milhões de espectadores pelo mundo, o trailer americano sobre a peixinha desmemoriada que quer reencontrar sua família chamou a atenção para uma sequência de poucos segundos em que duas mulheres com um bebê, num parque, supostamente formariam um casal gay. A Disney não confirmou nem desmentiu, mas a possibilidade de a casa de Mickey Mouse exibir o primeiro par homossexual provocou fortes reações nas redes sociais.
As manifestações pedindo o boicote ao filme também chegaram ao Brasil, com comentários como “Daqui uns dias não poderemos mais nem levar nossos filhos no cinema pra assistir filme infantil decente... que horror... o mundo jaz do maligno mesmo”, extraído de uma reportagem na internet. Coincidência ou não, “Procurando Dory” estreia justamente na semana do Dia Internacional do Orgulho LGBT, celebrado hoje.
“É uma hipocrisia fingir que gays não existem. O que não existe são famílias sem gays. Nos dias de hoje não dá mais para esconder, como se estivéssemos nos anos 1950, em que gay era caso de polícia, pessoas com deficiência ficavam trancadas em casa e negros ainda eram tratados como escravos. Hoje, o presidente da maior nação do mundo é negro, deficientes e mulheres ocuparam seus lugares na sociedade e gays perderam o estigma”, salienta o crítico de cinema João Nunes, do jornal “Correio Popular”.
Dubladora de Dory, a atriz homossexual Ellen DeGeneres havia deixado no ar que a animação contaria com uma arraia trans, o que acabou não se confirmando
Hipocrisia
Nunes salienta que basta olhar para o lado: “Eles estão em casa, no trabalho, no cinema, em todo lugar, não há como ignorá-los. Fingir que eles não existem e que são ETs, diferentes, só na cabeça de hipócritas. E convenhamos, há coisas mais sérias para serem boicotadas do que uma animação tão graciosa como ‘Procurando Dory’”, lamenta o crítico, que também não poupa aqueles que não permitem, em hipótese nenhuma, qualquer menção humorada sobre o universo LGBT.
“Não se pode fazer piada de gays, negros, mulheres, índios etc e não se pode colocá-los em situações constrangedoras nos filmes e eles não podem ser vilões, enfim, são intocáveis. Ora, eles, assim como brancos, homens, heteros, são todos humanos e, portanto, sujeitos a idênticas paixões. Há gays legais e gays canalhas, heteros bons e ignóbeis, mulheres bacanas e sacanas, negros respeitáveis e os sem nenhum caráter. No fundo, falta visão contemporânea do mundo tanto para quem boicota quanto aos que protestam”, analisa.
Não é a primeira vez que a Disney se vê no meio de tanta controvérsia sobre opções sexuais. Outro de seus sucessos, “Frozen – Uma Aventura Congelante” (2013), ganhou a hastag “Deem uma namorada para Elsa”, que recebeu 100 mil tuites. A reação foi imediata, gerando uma petição pedindo um príncipe encantando para a moça, que teve mais de 200 mil adesões. 

Barreiras
O diretor mineiro Leandro Wenceslau, que assinou o curta “Enquanto Ainda é Tempo”, sobre a temática, salienta que os profissionais do cinema e das artes em geral sempre tentaram de alguma forma dar voz a personagens, histórias ou contextos que lidem com as questões LGBT. 
“Acredito que a sociedade vem de alguma forma evoluindo e mudando nos últimos anos e com isso se torna um pouco mais fácil quebrar barreiras e tratar dessa questão de forma mais aberta, sincera e menos estereotipada, o que acredito que o filme faça de forma natural. No entanto, a todo movimento de avanço sempre existirá um movimento contrário e conservador. O que é uma pena, pensando que as pessoas podem no mínimo aprender muito ao conhecer e lidar com as diferenças”, registra Leandro.