domingo, 3 de junho de 2012

 Quadrinhos são literatura?

                                                                                             Franco de Rosa



     Houve uma época em que gibi era coisa para crianças, não mais
que entretenimento barato e descartável. Afinal, as histórias em
quadrinhos tinham como atrativo fácil leitura e forte
apelo visual em suplementos de jornais, que rapidamente demonstraram
ser um gênero de muita inventividade. Houve outra época
em que as historietas passaram a ser perseguidas. Eram acusadas
de causar preguiça mental e de conduzir crianças à delinquência:
“Hoje mocinho, amanhã bandido”, apregoavam as campanhas
moralizantes a partir do final dos anos 1940.
     Um novo tempo surgiu em nosso país quando os populares gibis
passaram a apresentar adaptações literárias de romances brasileiros.
O escritor Jorge Amado declarou certa feita que seus livros só
começaram a ser consumidos em maior escala depois que foram
vertidos para quadrinhos pelo editor Adolfo Aizen, em sua Edições
Maravilhosas. Isso porque as tiragens das versões em quadrinhos
de “Gabriela, Cravo e Canela”, “Mar Morto” e “Jubiabá”, entre outras,
foram na época dez vezes maiores que as tiragens iniciais de seus
livros. Foi uma ótima estratégia de marketing para o autor.
     Houve ainda uma época seguinte, quando os quadrinhos
conquistaram os alunos, foram adotados como linguagem didática
em livros escolares com grande destaque para os desenhistas Eugênio
Colonnese e Rodolfo Zalla, mestres dos quadrinhos de horror que,
juntos, produziram mais de 10 mil páginas de quadrinhos de todos
os gêneros.
      Em nossa época, corridos mais de 140 anos de seu
surgimento, os quadrinhos passam a dividir seu público com seus
herdeiros diretos; o desenho animado, os seriados de TV, a literatura
ilustrada e o videogame. No entanto, os quadrinhos não foram
extintos. Ainda é essencialmente uma arte literária que em nossa
época adquire novos contornos. Se no passado o foco principal
eram os personagens, hoje é o autor quem merece maior atenção.
Por isso, temos uma edição especial de “Discutindo Literatura”
voltada para as histórias em quadrinhos autorais.
     Turma da Mônica, Tintin, Asterix, Corto Maltese, Batman e Tio
Patinhas são séries geniais e personagens excepcionais que “não são”
nossos objetos de estudo aqui. São obras que merecem a devida
atenção em outro momento, assim como o mangá — a história em
quadrinhos japonesa, que vem dominando o mundo desde o final
da década de 1990 — que merece um enfoque particular e profundo
devido às suas particularidades. Queremos tratar aqui dos criadores
de quadrinhos que superam as barreiras da superexposição. Que
enfrentam a massificação com obras inovadoras e que têm a
criatividade como trunfo, conduzindo à leitura novas gerações, com
a bênção dos velhos devoradores da literatura desenhada.

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