segunda-feira, 11 de junho de 2012

BRASILEIROS NOS COMICS...

Quadrinhos: Daytripper

O que seria da existência sem os contrastes?

Não daríamos valor a luz das estrelas se não fosse a escuridão. Ao lazer se não fosse o trabalho. Ao chocolate se não fosse o morango. Aos momentos felizes se não fossem os tristes. À vida se não fosse morte.

É por esses contrastes que passeia Daytripper (258 pág., 2011) a última obra em quadrinhos dos gêmeos paulistas Fábio Moon e Gabriel Bá, publicada primeiro lá fora numa minissérie em 10 edições pela VERTIGO, o selo de quadrinhos adultos da editora americana DCComics, e que só agora chega aqui em terras brasileiras pela Panini editora. 

Brás de Oliva Domingos é um escritor de obituários com aspirações a grande literatura que vive a sombra do sucesso do pai, um escritor multipremiado e membro da academia brasileira de letras.

Em cada uma das dez histórias somos apresentados a momentos importantes da vida de Brás como o nascimento do filho, as férias de infância com os avós, a viagem pela Bahia com o melhor amigo, o dia que conheceu a esposa e vários outros. 

Contada de forma não-linear, cada capítulo é nomeado com a idade que Brás se encontra e pontuado, num ótimo emprego de realismo fantástico, pela morte do personagem após momentos de alegria ou mesmo de tristeza.

Abordando um tema específico como família, amor, amizade, trabalho, em cada um deles, sempre de um jeito diferente, subvertendo todas as expectativas. 

A obra merece a quantidade de prêmios que vem ganhando atualmente nos EUA e tem muitos méritos que justificam isso. Um deles é causar a identificação imediata através da descrição de episódios que poderiam estar na vida vários leitores.

Os gêmeos continuam afiados nos textos trabalhando de forma poética temas comuns como idas ao sítio, encontros românticos na padaria e até assaltos no botequim. 

Melhoraram bastante na arte, principalmente nas expressões genuínas dos personagens, nos detalhes dos cenários e ao retratar pontos turísticos da Bahia e de São Paulo

Na verdade, toda a caracterização da obra merece destaque. 

Brás, por exemplo, é a cara do cantor e compositor Chico Buarque

E a Bahia representada consegue se apresentar ao mesmo tempo de forma mística e verossímil tendo todas as idiossincrasias dos textos de Jorge Amado

Sem falar nas cores aquareladas que dão um toque todo especial ao sentimento de poesia cotidiana da história. Sem dúvida feita pra emocionar.

Dá até orgulho de ser brasileiro ao ver uma história totalmente produzida por autores nacionais ganhando três dos principais prêmios de quadrinhos nos EUA agora em 2011. Orgulho que não vem só da inegável qualidade da obra, mas pelo fato dela representar tão bem o Brasil.

Moon e Bá, avessos a super-heróis desde o início, começaram a carreira profissional há mais de 10 anos publicando de forma independente o fanzine em quadrinhos 10 Pãezinhos em São Paulo (que já rendeu 5 álbuns por grandes editoras).

Hoje, depois de vários prêmios por aqui que lhe renderam contatos e incursões ocasionais (e premiadas) no mercado americano, mostram que o Brasil pode fazer diferença nos quadrinhos dos EUA não só pela habilidade do traço, mas também nos roteiros.

A vida é feita de escolhas e Brás faz todas elas, algumas certas, outras erradas, e acaba construindo uma trajetória tão particular quanto fascinante.

Uma bela história sobre contrastes que pontua com realismo fantástico os sonhos, as aspirações e os episódios da vida cotidiana de um sujeito comum, com o maior mérito de transformar o mundano em poético.

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